Estrela Brava
realização de Jorge Polo
Brasil. 2025. 25 minutos.
em exibição até 5 de abril
Uma estrela cai na Praia Brava. Um rapaz espera o namorado enquanto um ET devora banhistas. Entre terror sci-fi e erotismo camp, o desejo não correspondido vira monstro, e a praia vazia, delírio sedutor.
Estou com saudade de sonhar com estranhos
Você nunca vem quando diz que vem. Por outro lado, você vem, sim. Estrela Brava é um filme que se constrói sobre as coisas-sendo-o-que-não-são, vindo-quando-não-vêm. Entre a imaginação erótica e a catastrófica, uma outra modalidade de esteticismo, completamente contemporânea, salta da tela. A imagem é plana e os sentimentos são apresentados sem cerimônia, como permite o terror de ficção científica. Os corpos, recortados a serviço do olhar do voyeur, distraem das emoções que os envolvem, marcando o caráter mais erótico do que romântico do filme. Nessa relativa despretensão e vulgaridade, a direção de Jorge Polo constrói uma obra radicalmente divertida e sedutora.
A sedução começa logo que a Praia Brava, em Búzios, aparece em tela. A cidade que Polo transforma em cinema – nesse e em outros de seus filmes – é apresentada como ponto de encontro pitoresco, onde, ao lado das luzes coloridas que indicam uma festa, cai uma estrela. À mitologia daquela terra com nome de arte divinatória, que já foi cenário para caça de baleias, saque de piratas, crimes coloniais, feminicídio notório e férias de Brigitte Bardot, soma-se um alienígena assassino que vem matando banhistas pela boca. Mas, antes disso, é só mais uma praia tranquila num dia qualquer de inverno, quando os argentinos e paulistas ainda não invadiram a calmaria dos moradores.
Ah, os invernos na praia. Do lado da Praia Brava tem uma área de nudismo. Pelo lado de cá dessa trilha, o protagonista desce incerto até a areia, como quem sabe que algo de mau está para saltar de trás da moita. Quando é avisado do perigo por um banhista, segue com mais tranquilidade, distraído do terror verdadeiro que se personifica em um namorado ausente que lhe envia mensagens de áudio enigmáticas para justificar o sumiço. A quietude da praia não o incomoda enquanto caminha sob o céu azul do inverno que reflete no mar; afinal, quando não está mergulhando, pode folhear quadrinhos obscenos em paz. O incômodo vem na forma de um velho amigo da juventude, do tipo intrometido.
Tudo na conversa que transcorre entre eles é absolutamente normal, tirando que nada faz o menor sentido. A imagem leva a pensar no que há de mais cômico em Beckett: dois homens, um deles a contragosto, trocam memórias desafetadas sobre morcegos, urubus e festas no meio de uma praia vazia, quando começam a falar nonsense: lobisomem, homem-gambá, padre que virou baleia, mulher que veio do mar. Mas, como em Beckett, nada é exatamente desprovido de sentido nessa conversa que a cada revisão promete mais risadas. O diálogo ganha caráter encantatório ao dominar aspectos do folclore local e de memórias de infância do diretor, que cresceu ali, e submetê-los à imaginação erótica, como fez Cecelia Condit em Possibly in Michigan.
A novidade que provém daquele clímax – “eu não tenho imagem”, diz o protagonista, quando pega a câmera do celular e a aponta para si – poderia render as mais diversas reflexões sobre o impacto das selfies, das redes sociais e dos relacionamentos por WhatsApp em uma geração de jovens hiperconectados e autocentrados; mas o que se apresenta materialmente ali é infinitamente mais interessante do que qualquer interpretação que tente dominar a cena. O horror que o colega sente ao ouvir que o casal não sai em fotos informa o exagero – estilo camp – de tudo que se segue: o protagonista é notificado pelo parceiro sobre seu término por mensagem de voz e, tão logo o sol vai embora, o monstro chega à Brava.
O desejo não correspondido se materializa em monstro de ficção científica, uma representação tão vulgar e radicalmente fantasiosa que persegue o protagonista lentamente pelo vazio da praia até capturá-lo em uma imagem que tudo converte à moeda negociável do imperativo erótico. No limiar entre morte e orgasmo, o último vence e o protagonista acaba se aconchegando com o monstro, criatura infinitamente mais acolhedora do que o namorado que nega seu prazer. Em sua economia dos sentidos, Estrela Brava assume que talvez só reste ao desejo – entre o erótico e o catastrófico – a coragem de sublimar a saudade de sonhar com estranhos.
O filme parte do desejo de voltar a um espaço, a Praia Brava, e a outros filmes de que gosto ou que quero eventualmente fazer. Uma mistura de fragmentos de memórias de diferentes naturezas em uma estrutura que se pretende slasher. Lembranças de cinema, de lendas e de causos da cidade de Armação dos Búzios, juntando ainda com ideias em estágio inicial para outros filmes. O diálogo entre o namorado que espera e o amigo inconveniente talvez condense esses impulsos.
A briga em Kairat (Omirbayev, 1992), que faz pássaros voarem do telhado, se mistura à memória da casa mal-assombrada que virou boate no centro. A história de roubo de náufragos, com cumplicidade do padre da cidade, em The Fog (Carpenter, 1980) ressoa a fundação da Igreja de Sant’Anna, em 1743, erguida em agradecimento a um naufrágio que teria sido evitado pela santa, no tempo da caça às baleias na cidade. A imagem do homem nu à espreita em cima do telhado em It Follows (Mitchell, 2014) se conecta a causos de gringos pelados assediando estátuas em Búzios. Há também o lobisomem do bairro, em relato documental de Gustavo, que além de ator do curta é técnico de som, colaborador no roteiro, assistente de arte e companheiro de ver filmes de terror desde a adolescência.
A artesania de Fulci, palpável e engenhosa. Se nos filmes dele uma certa autonomia do gore se faz sensível, aqui precisamos construir coreografias no limite do efeito. Tetsuo (Tsukamoto, 1989) e uma sexualidade extrema, a mão do alienígena – cujo projeto de pele não se adapta às condições climáticas do espaço em que cai (dado quase ausente). Algumas poses, de Huillet-Straub a Bloody Beach (In-soo, 2000). Cedo demais, tarde demais (Huillet, Straub, 1982), título enquanto texto de zap. Frank O’Hara e Robert Walser com adaptações ao litoral fluminense. Uma camisa do Flamengo que lembra a de Freddy Krueger aponta a direção do terror. Uma foto de bastidores do ator Lucas Souza Teixeira caracterizado como múmia em outro filme nosso, Canto dos Ossos, ou uma das últimas vezes em que o personagem teve imagem.
Se fosse para programar uma sessão dupla, talvez escolhesse A Força dos Sentidos (Garrett, 1978): uma mulher surge na praia e começa a perambular por uma pequena cidade, possuindo esposas dos moradores enquanto transa com pedras e ondas. Algo de uma dimensão erótica e sobrenatural no contato com elementos da paisagem. O mistério em torno de espelhamentos da imagem nesse contexto. Tinha algo sobre o protagonista tirar fotos e não conseguir vê-las, não me lembro bem.
A trama se dá quase por completo na parte direita da Praia Brava, onde costumamos ficar sob uma amendoeira quando estamos a passeio. É possível avistar esse ponto desde um barranco na beira de uma estrada de paralelepípedo, presente no filme, onde é possível acompanhar o nascer do sol. Lembro de uma primeira vez em que subimos lá com nossas próprias pernas – é um trajeto mais comumente feito de carro –, depois de uma bebedeira que atravessou a madrugada no centro da cidade. Um amigo deitou de cansaço no meio do caminho, se recusando a continuar, até que o convencemos a seguir. Ao chegarmos no topo, o sol começou a queimar um caminho dourado no oceano. Lucas, agora protagonista do filme, começou a falar que sonhava um dia viver em um barco com amigos.
Anos mais tarde, depois de ver A Hora do Pesadelo (Craven, 1984), fomos eu e Gustavo assistir ao nascer do sol deitados no gramado do barranco. Na vez seguinte, prometi o nascer do sol a amigos vindos de outra cidade, depois de passar a madrugada na Praia Azeda. Quando chegamos lá, o sol nasceu errado. Um pouco escondido na encosta da Praia Brava e não diretamente sobre o mar. Uma nuvem de insetos começou a dançar diante de nós – vespas, abelhas ou outra coisa? Voltamos para o nascer do sol na gravação do Sono da Armação, filme que está em processo. Desta vez, nem o sol no mar – estava um pouco nublado –, nem a nuvem de insetos. Encenamos uma situação vivida na ocasião anterior, quando um mesmo carro parou algumas vezes com um walkie-talkie ameaçador, talvez um segurança privado das mansões da área. Aproveitamos para filmar a boate iluminada na beira da praia.
Esse plano entrou no roteiro e montagem de Estrela Brava, adicionado de um fogo em computação gráfica baixado do YouTube, iniciando o filme. O fogo retorna na mata como incêndio real, quase no mesmo ponto, captado em uma diária que o diretor de fotografia Bruno Menezes produziu sozinho para coberturas. Talvez um pouco do movimento do filme seja reorganizar e testar experiências, desejos e experimentos com a paisagem e o terror, em uma escrita de rasura. As páginas de roteiro mostram um pouco desse processo em que sugestões de encenação, referências, ideias de direção de arte e outras coisas, que nem sempre sabíamos de antemão como realizar, foram se acumulando. Um roteiro que tentava lançar soluções e problemas para uma equipe técnica de seis pessoas (incluindo elenco) que vivem ou viveram em Búzios, enquanto mantinha alguma abertura para o inesperado.
Estrela Brava; 2025; 25 minutos; Brasil; Elenco: Lucas Souza Teixeira, Gustavo Pires, Bárbara Cabeça, Akira Band, Jorge Polo; Produção: Bárbara Cabeça, Jorge Polo; Roteiro, Direção e Montagem: Jorge Polo; Ass. de Direção: Bárbara Cabeça; Direção de Fotografia: Bruno Menezes; Direção de Arte: Jorge Polo; Ass. de Arte: Gustavo Pires, Bárbara Cabeça; Som Direto: Gustavo Pires, Akira Band; Trilha Sonora Original: Uirá dos Reis; Correção de Cor: Jorge Polo; Mixagem: Tomaz Viterbo; Empresa produtora: Barranco; Coprodução: Lambeolhos, Campos Gerais
apoiadores dos estranhos encontros
Dinah Oliveira, aloísio corrêa, maria tereza kauffman, Leo Montagner